O que é a rentabilidade da cota e por que ela nem sempre acompanha o CDI

Todo mês aparece a mesma comparação em alguma conversa de corredor. Alguém viu o rendimento do plano, comparou com o CDI daquele mês, e concluiu que o plano está indo mal. É uma conta rápida, feita com boa intenção, e ela costuma levar a uma conclusão errada. Entender por que exige dois minutos e um pouco de paciência com dois conceitos, e vale a pena, porque essa é a diferença entre acompanhar o seu plano com clareza e se assustar sem motivo.

Comece pela cota. O patrimônio do seu plano é dividido em cotas, como uma pizza dividida em fatias. As suas contribuições compram cotas ao preço do dia, e o que muda com o tempo é o valor de cada cota, calculado a partir de todos os ativos que compõem a carteira do plano. Por isso o seu saldo cresce por dois motivos diferentes: porque você comprou mais cotas ao longo do mês e porque o valor de cada cota se movimentou. Confundir esses dois efeitos é o primeiro erro comum de leitura do extrato.

Agora o CDI. Ele é uma taxa de referência do mercado de empréstimos de curtíssimo prazo entre bancos, e acompanha de perto a taxa básica de juros da economia. Ele tem uma característica que os investimentos de longo prazo não têm: é quase uma linha reta, sempre positiva, sem sobe e desce visível. Comparar mês a mês uma carteira diversificada com uma linha reta é comparar coisas de natureza diferente, e a comparação vai parecer desfavorável em todos os meses em que a parte variável da carteira estiver oscilando para baixo, mesmo que aquela mesma parte seja a responsável pelo resultado dos anos seguintes.

Tem ainda uma questão de horizonte, que é a mais importante. A carteira de um plano de previdência complementar fechada é montada para um compromisso que se estende por décadas, e inclui ativos que fazem sentido nesse prazo, como títulos públicos longos, crédito privado, participação em empresas e, em alguns casos, imóveis. Vários desses ativos se comportam mal em janelas curtas e bem em janelas longas. Julgar essa carteira por trinta dias é como avaliar uma viagem de mil quilômetros pelo trecho de subida que você pegou nos primeiros dez.

Isso não significa que a comparação com o CDI seja inútil, e nem que o participante deva aceitar qualquer resultado calado. Significa que ela precisa ser feita no prazo certo e contra a referência certa. Olhe janelas de doze meses, de trinta e seis meses, do acumulado desde o início do plano, e compare o resultado com a meta atuarial ou com o índice de referência definido na política de investimentos do seu plano, que é o parâmetro pelo qual a gestão efetivamente se compromete. Essa informação está nos relatórios da entidade e é pública para o participante.

Vale ainda lembrar que existem perfis diferentes dentro do mesmo plano, com composições distintas, e que o resultado do seu perfil é o que interessa para você. E vale a regra que nenhum texto sério deixa de fora: rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura, nem no plano, nem no CDI, nem em lugar nenhum.

Da próxima vez que o resultado do seu plano chegar, mude a forma de olhar. Procure o histórico longo, não só o número do mês, e veja como ele se comportou diante da meta do próprio plano. E se algum ponto do relatório não estiver claro, pergunte à sua entidade. Prestação de contas existe para ser lida, e pergunta de participante é parte do processo, não incômodo.